terça-feira, 23 de agosto de 2011

Poesias Gaúchas

Gaúcho

Os moços de Porto Alegre 
- escritores, jornalistas, 
aqueles que sabem tudo, 
ou pensam que sabem tudo... 
disseram que já morreste. 
Ou então que estás de a pé, 
sem cavalo, sem bombacha, 
sem bota, espora ou chapéu, 
sem comida e sem estudo. 

Moços da voz de veludo 
e máquinas de escrever 
produzidos no estrangeiro 
dizem que tu, companheiro, 
morreste ou estás mui mal 
porque o êxodo rural 
te atirou pelas sarjetas 
sujo de pó e de barro 
catando a toa cigarro 
nos becos da capital... 

E no entanto, estás vivo! 
Estás vivo e trabalhando 
e produzindo o que comem 
esses moços do jornal. 

Quem é gaúcho, afinal? 

Tenho pra mim que são três: 
um é o peão, o assalariado, 
o operário campeiro. 
O segundo é o estancieiro, 
o empresário rural. 
O terceiro é o camponês 
que se agüenta bem ou mal 
sem ter nem peão nem patrão. 
No mais, é um homem solito, 
um carreteiro, talvez. 

São os homens de a cavalo 
que agarram o céu com a mão, 
rasgando fronteira e chão, 
marcando terneiro a pealo, 
bebendo o canto do galo 
no alvorecer do rincão. 

São três homens diferentes? 
No fundo, os três são um só: 
mesma fala, mesma roupa, 
mesma alma, mesma lida... 
Em resumo, mesma vida, 
mesmo barro e mesmo pó. 

Um mais rico, outro mais pobre. 
Prata, ouro, lata ou cobre 
que importam, se homem é nobre 
e amarra no mesmo nó? 

A bombacha que eles usam 
tem um século. Cem anos! 
Os arreios do cavalo 
são muitos mais veteranos: 
duzentos anos talvez. 
E o chimarrão, o palheiro, 
o churrasco, o carreteiro, 
o truco a tava, as campeiras, 
a gaita, o chote inglês...? 
São dos gaúchos passados, 
já tinham em 93. 

E a mesma mulher gaúcha 
inspira cada vez mais. 

E a paisagem é sempre a mesma. 
Eterna, mas sempre nova. 
Do litoral à fronteira, 
da serra aos campos neutrais. 
Das missões até o planalto 
para frente e para o alto 
como regiões naturais, 
do verde das sesmarias 
até o ouro dos trigais 
- as duas cores da pátria 
que o Rio Grande esparramou 
nas plagas meridionais. 

Porque o Rio Grande é eterno 
como é eterno seu luxo: 
tu não morreste, gaúcho, 
deixa que falem, no mais. 
Deixa que o fraco de sempre 
(o fracassado, o vencido) 
tente te encerrar no olvido 
que o futuro lhe promete. 
E que te chamem de Odete 
os desfibrados morais: 
no lombo do teu cavalo 
estás tão alto, tão alto, 
que a lama preta do asfalto 
não te alcançará jamais! 

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